quarta-feira, 14 de outubro de 2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

AQUELE MENINO DO CABELO ROXO

Estréia dia 9 de outubro, o espetáculo infantil AQUELE MENINO DO CABELO ROXO, no teatro Gacemss, em Volta Redonda.

Texto: Alexandra Garnier
Direção: Marinêz Fernandes
Elenco: Luciene Martes, Marcelo Lima,
Lúcio Roriz e Aline Mara
Cenário: Dóris Rollemberg
Cenotécnico: Ataíde César Toledo
Montagem: Mauro Cruz
Artista Plástico: Jorge Roriz
Trilha Sonora: Rogério Valente
Sonoplastia: Carla Araújo
Iluminação: Luciene Martes

quinta-feira, 30 de julho de 2009

filme O MUNDO DE SALETE

O MUNDO DE SALETE participa da mostra competitiva do
V IBERO BRASIL CINE FESTIVAL, que acontece no planetário da Gávea, no Rio, até sábado.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

banco alto e uma luneta

banco alto e uma luneta
agora tem endereço próprio!
divirta-se com a primeira temporada...

quinta-feira, 25 de junho de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XX – Lá vou eu!

se houvesse uma oportunidade para eu mudar de vida... Foram mais de dezessete anos de Piscina Lazer e Cia. Presenciei seus tempos de glória e sua decadência...
Cansei, sabe? Tenho achado um pouco monótono... Eu... o banco alto... minha luneta... Sr Irene... uns buços descolorindo aqui... umas bundas no braço acolá...
Bem, para se conseguir um novo emprego, de preferência melhor que o atual, preciso ter algum amigo influente ou um excelente e recheado de títulos currículo profissional.
Amigos, tenho muito poucos. Influentes, nenhum. A não ser que eu queira um cheeseburguer com porção extra de queijo, sem pagar adicional. Valéria é super influente na cantina do clube.
Disse ao Olavo, assistente administrativo, que precisava pesquisar na internet novas modalidades de salvamento em piscina. Olavo me disponibilizou o pior computador do clube.
A tela treme, o mouse não “rola” e no teclado desdentado, falta o “d” e o “g”.
Estou aqui, frente à esse jurássico PC, tentando começar a escrever meu passaporte para uma vida nova, de preferência, bem longe do Piscina Lazer e Cia.


Formação
E ucação Física – Universi a e Santa Luzia de
Lavrinhas
Experiência Profissional
1992-atual – uar iã de Piscina –
Clube Piscina Lazer e Cia

É. Constato nesse exato momento, que meu currículo não é dos maiores, nem dos melhores, muito menos dos mais recheados de títulos. Sem as teclas “d” e “g” fica realmente complicada a vida de uma “ uar iã de Piscina”! Pesquiso na internet e descubro um tal de “resumo curricular”. Descubro também, que enfiando uma caneta nos buracos do “d” e “g”, consigo o “d” e o “g”.

Resumo curricular
Formada em Educação Física pela Universidade Santa Luzia de Lavrinhas, é Guardiã de piscina do renomado clube Piscina Lazer e Cia desde 1992. Já efetuou diversas limpezas no pátio
ao redor das piscinas, além de ser extremamente habilidosa com a peneira. Foi responsável direta por cerca de nove salvamentos, dentre eles, o de uma senhora robusta e uma boneca pelada e sem um olho. É assídua em seus deveres de Guardiã
de Piscina, é simpática e um pouco parecida com Pamela Anderson (do seriado Bay Watch, sabe?). Maneja com destreza a luneta e o banco alto.

Até que não ficou ruim... Será exagerado o termo “renomado”?... De qualquer forma, ainda acho que falta alguma coisa... um incentivozinho para quem estiver contratando... uma foto, talvez?... Tão inanimado... Penso em alguma coisa mais à minha altura, mais Broadway, mais Anderson, mais tchan!
Um clip de meus melhores momentos como Guardiã! É isso! Me venderei muito melhor se estiver figurada, em movimento e em pleno exercício de minhas funções...

Um amigo de um colega de um primo de um conhecido do afilhado do secretário de segurança da subprefeitura de Leopoldina, indicou, pessoalmente, meu clip-curricular ao secretário. Yupiee!! Adeus Piscina Lazer e Cia! Adeus Sr Irene! Adeus Sr Telles e equipe...

PS: O banco alto e a luneta foram enviados para o Piscinão de Ramos, através de transportadora terrestre, junto à geladeira de laterais não-inox, as calcinhas e os poucos pertences de Sâmela...


Chegamos aqui, ao fim da primeira temporada de
BANCO ALTO E UMA LUNETA
Meus maiores agradecimentos a
Luciene Martes e Marcelo Bravo!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XIX – mantra do sovaco

Janete é uma picareta! O cabelo alisado da Diva, ficou tricolor após a primeira lavagem. Meriluci está agora com o cabelo tão duro, que se encostar na parede, lasca o reboco. Valéria coitadinha, tem poucos dentes na boca e já tinha “cabelo ruim” como ela mesma dizia. Agora, Valéria da lanchonete está sob a alcunha de Valéria das cavernas... não é preciso nem descrever o que Janete lhe proporcionou... Jorge da portaria estava radiante em seus cinco dias de “Beiçola”. Após lavagem, ficou a cara do Macunaíma no ato de seu nascimento.
Eu, acho bem que fui salva pela boneca caolha. Se não entrasse na piscina logo após a escova pró-regressiva formolife de morango e chutney de litchia, talvez estivesse hoje, careca.
Meus cabelos começaram a cair no dia seguinte à minha tentativa de ser detentora de um liso profundo.
Moro num quartinho emprestado nos fundos de uma lanchonete, tenho uma geladeira cujas laterais não são de inox, minhas pernas e bunda estão cada vez mais flácidas, Sr Irene resolveu nutrir uma paixão por mim (que fique em estado platônico pela eternidade), Ademar só me aparece em sonhos... realmente, só me faltava perder o cabelo!
Não importa o lugar que esteja, se der vontade de número “um”, vou ao banheiro de mãos vazias e tudo bem... mas se a vontade for de número “dois”, aí a coisa é mais complexa. Não sei me concentrar sem uma boa leitura. Um livro, revista, jornal, bula de remédio, rótulo de shampoo, folheto de propaganda, latinha de atum, receita, bíblia, manual de instruções, dicionário, enfim... me agarro a qualquer coisa com palavras que estiver pela frente e vou ao trono.
Numa dessas idas, ainda preocupada com minha queda capilar, peguei de cima do balcão da lanchonete o jornalzinho do bairro. Mais tijolinhos de propaganda que matérias. Entre um anúncio de cartomante e um de mecânico de bicicletas, estava lá... “Faça como o índio caramujocu e acabe de vez com o problema da calvície!”
Saí do banheiro esbaforida, fui até um orelhão, na rua em frente ao Piscina Lazer e Cia e encomendei um kit capilar de raiz de sucuribiuçu, produzido pela caramujocu cosméticos ltda.
A encomenda chegou em 48 horas. Ontem à noite, ao tomar banho, esfreguei abundantemente o tônico por toda a cabeça, deixando escorrer a espuma pelo rosto, axilas...
Fechei os olhos e imaginei caramujocu em pessoa, ensaboando minha cabeça e dizendo: “hoje, moça guardiã é sinead O’Connor, amanhã, moça guardiã será Elba!”
Saí do banho confiante. Fui dormir e sonhei que Ademar se ajoelhava aos pés de meu banco alto e gritava, fazendo ulular seu pomo de Adão: Jogue suas tranças Rapunzel! Ao final do sonho, Ademar enchia Sr Irene de Porrada.
Acordo hoje como todos os dias. Faço xixi, escovo os dentes e... Ôpa!! Quem pôs uma portuguesa do Cais do Porto em meu espelho??
Caramujocu é tão picareta quanto Janete! Não me pareço com Elba... Nenhum fio de cabelo a mais na cabeça e um buço de dar inveja a Charlie Chaplin logo abaixo do nariz...
Estou atrasada! Coloco um lenço na boca e peço a Jorge da portaria que me empreste seu barbeador. Tu tá na moda da novela é?! Tá quase que irmã daquela Maya!, diz ele me entregando uma Gilette pra lá de usada...
O buço já está raspado! Sigo para meu banco alto. Estico meus braços segurando nas barras de ferro que formam a escada e... Carambola! Foi-se uma portuguesa e veio uma hiponga de dar inveja a Janis Joplin! Primeiro pensei que fosse um enorme besouro cabeludo beijando meu sovaco... agora vejo que são cabelos... verdadeiramente meus. Queria que Elba estivesse na cabeça e não nos sovacos.
Sr Telles não pára de me observar. Grudo os braços ao corpo e não levanto por nada. Só desejo que o dia acabe, que caramujocu tome bem lá na última sílaba...
O dia passa e, com medo de esquecer do bicho cabeludo debaixo de meus braços, repito no pensamento sem cessar: "o sovaco é cabeludo, o sovaco é cabeludo...”
Um rapazinho quica a bola no pé, na coxa, no ombro, roda no dedo, faz mil peripécias e... Pega aí!, diz ele me jogando a bola, todo animadinho.
Obviamente, o reflexo do corpo é mais rápido que o mantra “o sovaco é cabeludo”. Levanto os braços e pego a bola com destreza... deixo à mostra, toda minha tristeza...
Se houvesse uma oportunidade para eu mudar de vida...

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

quinta-feira, 11 de junho de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XVIII – meu liso profundo

“B+” foi a nota conferida a mim na prova de atualização da Associação dos Guardiões de Piscina. Sr Telles torceu o nariz e disse que um “A” seria o satisfatório. Não fui demitida, mas saí do escritório com um bico de fazer inveja à Angelina Jolie. O que é que ele pensa? Que colar é uma tarefa fácil? Que só por que eu tinha todas as respostas estampadas em mini papeizinhos por todo o corpo, sou obrigada a tirar um “A”? Quero ver colar melhor que eu...
Tenho pensado muito em Ademar, pensado em minhas coxas cada vez menos tenras, em minha bunda cada vez mais próxima dos calcanhares, em minha vida sem novidades...
Há uns sete anos, ainda havia diversidade de tipos. Hoje, as mulheres ainda diferem quanto ao peso, cor, circunferência de anca, altura... mas a diversidade já não é a mesma. Uma coisa todas elas tem em comum: o cabelo. Seja ele crespo, cacheado, ondulado, agarradinho ou espevitado, todos tem, atualmente, uma coisa em comum: tornam-se lisos inevitavelmente. Nunca se viu tanta cabeça feminina com cabelo esticado, do couro à ponta.
Tirei “B+” na prova da AGP e garanti meu convívio diário com meu banco alto e minha luneta... assim sendo, acho que mereço um agradinho.
Diva da contabilidade, Meriluci da limpeza, Valéria da lanchonete e até o Jorge da portaria aderiram ao liso profundo.
Janete, uma cabeleireira lá de Padre Miguel, que acaba de abrir um salão pelas redondezas, anda distribuindo panfletos com descontos para funcionários do Piscina lazer e Cia. Chapinha simples, de chocolate e formolife... escova progressiva, gradativa e radioativa... alisamento egípcio, indiano e cuiabano...
Janete foi super simpática e dedicou a mim, sete horas e meia de seu precioso tempo. Lindinha, agora você só volta daqui a cinqüenta dias para retoque... não esquece, precisa ficar cinco dias sem lavar, nem molhar os cabelo... cloro, tu passa longe! Vento, poeira, sereno, calor excessivo, sol, nuvens esparsas, som alto, vibrações negativas e queijo coalho, também precisam ser evitados., disse minha atual melhor amiga.
Saí de lá sentindo que meu futuro, daqui para frente, seria realmente promissor. Sentia que aquele liso profundo extremamente “formolizado”, seria capaz de mudar minha vida.
Disse ao Sr Telles que precisava tirar segunda via de meu documento de identidade, por isso, faltei uma manhã inteira de trabalho... voltei agora e não há como inventar outra desculpa para não subir em meu banco alto e exercer minha tarefa diária.
Estou aqui em cima. Observo a tudo sem movimentos bruscos. Me movimento o menos possível. Os fios de meu cabelo parecem estar inteiramente unidos, emplastrados e extremamente colados à cabeça, aos ombros e parte do braço.
Todo o cuidado é pouco. Além de parcelas mensais para pagar minha geladeira de laterais não-inox, me comprometo agora, a parcelas mensais para pagar minha escova pró-regressiva formolife de morango e chutney de litchia. Janete disse que meus cabelos não precisavam de nada mais agressivo, já que eram naturalmente quase lisos.
Queijo coalho e sereno estão sendo facilmente evitados no momento. Minha preocupação maior é o sol, o calor excessivo e o vento.
Vigio através das lentes de minha luneta. Dois casais imbecis se divertem com briga de galo... um grupinho de meninas adolescentes discute a intelectualizada e já épica trama de Crepúsculo e Lua Nova ... Harry Potter já é coisa do passado.
Vejo alguma coisa boiando... me parece alguém... uma criança... Guardiã de Piscina aplicada e eficiente que sou! Desço de meu banco alto pronta para o resgate... Tento pensar na bunda de Brad Pitt, num resort em Acapulco e num enorme cheseggsaladonionburger... Apenas coisas positivas. Janete havia me recomendado quanto à vibrações negativas.
Na beira da piscina avisto o alvo. Penso em meu cabelo em estado de liso profundo. Olho para o alvo. Sinto o cheiro de cloro. Era a vida do alvo, ou o liso de meus cabelos...
Me jogo na piscina já deixando que as vibrações negativas “inexorcisáveis” se apoderem de meu corpo. Chego a desejar queijo coalho.
Encontro o alvo. É irritantemente inacreditável que eu tenha destruído, moído, despencado e dizimado meu liso profundo, por uma boneca pelada e sem um olho.

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

quinta-feira, 4 de junho de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XVII – a prática eu aplico, a teoria eu colo

foram duas semanas dormindo e acordando num invólucro de nylon quente e azul... até que fui descoberta... Gleycione, o segurança do Piscina Lazer e Cia – aquele que muitos capítulos atrás me obrigou a sair com ele em troca de silêncio, no capítulo bunda no braço – se vocês não se recordam, eu jamais esquecerei! Lembro sim, de ser obrigada a acompanhá-lo num churrasco na laje de um primo de um amigo de seu concunhado... Quilos de carne dura, salgada e de procedência duvidosa... Horas de um cara chato, pegajoso e com pilastras de cuspe na boca...
Está certo... fui descoberta! Gley até que tentou me propor “coisinhas” em troca de seu silêncio... Antes que ele terminasse a frase, saí correndo em direção ao escritório de Sr Telles. Eu hein... outra dose de Gley, nem pensar!
Contei tudo, tudinho para Sr Telles, ainda com a barraca azul toda embolada embaixo do braço.
Sr Telles me olhava de um jeito indecifrável. De repente percebi uma ligeira umidade se formando no canto de seus olhos. Sr Telles me abraçou, beijou minha testa quase subindo num banquinho e me disse: Filha, eu sou uma pessoa boa, muito boa... tenho mesmo este defeito! Não sei ver uma alma perdida e desorientada e não ser caridoso...
Desde aquele momento, Sr Telles “pegou feição” por mim, como ele mesmo diz.
Estou agora morando num quartinho com banheiro, nos fundos da lanchonete do clube. O cheiro de gordura reciclada é um pouco forte, mas tem cama e não é azul! E querem saber o que vejo através da pequena basculante?... basta subir na cama, inclinar o corpo a 35 graus, pender a cabeça para o lado esquerdo e... está lá meu querido e afeiçoado banco alto!
Ontem já trouxe minha geladeira de laterais não-inox para cá e hoje já estou indo serelepe atender ao chamado de “papi” Telles...
Entro na sala sem bater, afinal, agora sou como uma filha... Papi parece agitado. Uma mulher de olhar estranho sai no momento em que eu entro.
Está vendo esta senhora que acaba de sair? É da Associação dos Guardiões de Piscina... Veio aplicar a prova em você!, disse Papi depositando em mim toda sua confiança paternal.
Aplicar em mim? Raqui ou Peridural? Não gosto da idéia de ficar sem sensibilidade da cintura para baixo... Saí do escritório com um livreto, manual do guardião de piscina. Minha filha, ou você tira “A”, ou terei de dispensá-la!, diz Sr Telles, agora nem tão paternal assim...
Me lembro... recebi, há mais ou menos um mês, um envelope pardo pelo correio. No remetente havia escrito datilografadamente à máquina: AGP convoca. Não me liguei que talvez fosse algo importante... joguei fora achando que seria algum panfleto publicitário ou o documento com a ordem de despejo.
Não estudei absolutamente nada e não sei absolutamente nada. Saber eu sei. Sei fazer. Mas não sei conceituar. Há uma enorme diferença entre prática e teoria. Meus neurônios que cuidam dessa parte teorizante aí, andam meio adormecidos...
Algumas coisas a gente aprende e esquece em seguida. Outras a gente aprende e esquece algum tempo depois. E há ainda as que a gente aprende e... realmente aprende! Não esquece jamais. Essas, são raras e conto nos dedos, uma delas, é a produção perfeita de colas...
Tenho pouco tempo até a hora da prova. Não dá para selecionar, escolho respostas aleatoriamente, anoto em pequeninos pedaços de papel e escondo em lugares já preestabelecidos pela ACP – Associação dos Coladores Profissas – chinelo, aba do boné, coxa da perna, língua e em quase todos os orifícios de meu corpinho de guardiã.
É chegada a hora. Entro no quartinho de guardados. A mulher do olhar estranho me estende a prova numa prancheta daquelas que metem medo.
Sento na cadeira dos fundos, afinal, preciso de espaço para teorizar... Logo de cara: que lesão corporal resulta da exposição à energia elétrica, mecânica, química ou radioativa?, não tenho a menor idéia. Sei que na prática, eu poria mertiolate e esparadrapo. Consulto meu neurônio fixado ao boné e “voilá”.
Assim vou... consultando e acertando! Impressionante como essa técnica da ACP funciona! A moça do olhar estranho lê seu jornal tranqüila e eu vou, na prática, aplicando minhas teorias.

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

quinta-feira, 28 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XVI – sou ótima?

é incrivelmente quente aqui dentro! Sonho que eu e Ademar estamos numa sauna à vapor. A fumaça é tanta que já não vejo seu rosto. Sinto o suor inundando meus olhos e... de repente, me transformo num enorme brioche recheado com calabresa e queijo coalho. Estou dourando no forno, enquanto uma fila descomunal espera, do lado de fora, ansiosa por me devorar...
Acordo no momento em que um rapaz de cabelos longos, lisos e oleosos, de jaleco branco, abre a porta do forno e me olha desejoso...
A barraquinha que me hospeda é muito azul e muito quente. Sr Telles está verdadeiramente impressionado comigo. Tenho chegado no trabalho até antes do horário... morar na barraquinha nos fundos do clube tem suas vantagens... talvez só essa.
Esta noite ventou bastante e a piscina está cheia de folhas e insetos. Com minha peneira, inicio a limpeza.
Dois banhistas já estão dentro d’água. Cato folhas ao redor de seus pescoços e ouço a conversa, fingindo não estar nem aí. Canto uma música sem som, apenas com o movimento dos lábios, só para disfarçar. Peneiro e escuto.
... Por que eu sô bom. Sô bom nisso sabe? Aliás sô ótimo!, diz o mais gordinho. Eu sei cara! Mas eu também sô muito bom, bom mesmo sabe... do tipo que não perde pra ninguém! Sô ótimo!, responde o narigudo.
Já não há folhas nem insetos, mas continuo peneirando. Fico curiosa para saber em que eles são tão ótimos assim!
O gordinho não pára de mostrar suas veias dilatadas do pescoço. O narigudo faz um movimento intermitente para um lado e para o outro. Em que eles são ótimos e imbatíveis? Em estourar jugular e imitar pêndulo?! Ah, isso eu também sei...
Os rapazes se afastam nadando cachorrinho. Deixo de lado a peneira e pego minha luneta.
De pé, na beira da piscina, observo através da lente e penso: Sou ótima? Sou ótima em alguma coisa? Pelo jeito, todos, inclusive os narigudos e os gordinhos são ótimos em alguma coisa...
Ah, sim! Sou ótima em salvamento! Mas quando assisto Pamela Anderson em episódios antigos de Baywatch... Não sou tão ótima. Não enquanto Pamela viver!
Uops! O que é essa miniatura ao meu lado? Uma menina, obviamente... uma menina de maiô preto, boné branco... ei, essa pirralha roubou meu antigo uniforme?! E esse binóculo super-ultra-infra-moderno totalmente ridículo?!
Acho que essa coisa pequena está me imitando... Sem que nenhum adulto ou funcionário do clube veja, boto minha língua para fora... recebo uma igual, só que menor. Ela está mesmo me imitando. Essa menina não tem mãe, não?
Percebo que talvez esse seja o momento para definir minhas diretrizes relacionadas ao “ótimo” em minha vida. Sinto que para ser ótima, preciso, ao menos, ser melhor que alguém, mesmo que ínfima criatura...
Faço uma careta com as mãos que poucas pessoas sabem fazer. Foi com ela que ganhei o concurso interno de caretas super criativas do Colégio Santa Terezinha, onde cursei o “prezinho 2”.
A menina me devolve uma careta realmente feia... ainda bem que ela não era minha concorrente no Santa Terezinha.
Tento umas bizarrices... ela se atira no chão e faz uma estrela perfeita! Pronto, agora que eu não saio da competição... ou sou ótima ou não me chamo... Me lanço numa estrela, tentando não quebrar nenhum osso. A menina agora repete o movimento com apenas uma das mãos... Caramba! Tenho que ser ótima! Tento um movimento mais arriscado. Dou uma cambalhota dando o meu melhor. A menina faz uma pirueta totalmente ótima que nem sei o nome!
Mas, certamente, esta diminuta não contava com minha astúcia! Planto uma bananeira perfeita! Tarââân! Quero ver ser mais ótima que eu!
A menina pede que eu espere e vai até a lanchonete. Um pouco competitiva a garotinha, não? Ela volta com uma bandeja de sanduíches e me chama para o “quem come mais”. Atacamos e nos atracamos nos pães com presunto. Perco a conta! Como algumas dezenas! Não é possível que caiba tanta massa de trigo e fermento nessa criaturinha...
Meu estômago está transbordando... Comemos agora o último sanduíche... Parece que estamos empatadas. A menina se levanta com cara de quem vai vomitar, dá dois passos e cai no chão! Carambola! Eu só queria ser ótima, não uma assassina de criancinhas. Me aproximo preocupada e sacudo a pirralha. Ahahahah!, levanta a menina rindo da minha cara dizendo: Te peguei! Te peguei! Eu sou a vencedora!
Tá bom... mas sou muito ótima em dormir enfiada numa barraca quente e azul.

Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

quinta-feira, 21 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XV – despejada

OKEY! OKEY, OKEY!! Artur Osvaldo, você venceu! Entra e toma para ti o que é teu por direito!
Sonho que Ademar me toma em seus braços, rasga meu vestido, me diz coisinhas com o lóbulo de minha orelha em sua boca, puxa meus cabelos, me chama de lagartixa desavergonhada e encaixa em meu dedo um belo anel de compromisso... Ding-dong! Ding-dong! Ding-dong-ding... Primeiro achei que fosse o tilintar de nossas taças de champanhe...
Ding-dong! Daí percebo, ao abrir um olho e depois o outro, que alguém aperta, histericamente, a campainha da porta.
No relógio na cabeceira, são cinco e quinze da manhã. Vou até a porta... Ding-dong! Há várias semanas que disfarço a voz, fingindo ser outra pessoa. Querem que eu assine esta ordem de despejo, mas vou ficando o quanto posso.
Quem bate?, pergunto com a voz do Barney. Hei Fred, é você?, pergunto de novo, só para garantir... Se for Artur Osvaldo, ele precisa ter certeza de que não estou.
Já fui Sílvio Santos, Pato Donald, Piu-Piu, Hebe e até uma personagem que eu mesma inventei, com a voz bem parecida com a minha – para dias em que estou de mau humor.
Ninguém responde. Volto para o sonho com trilha de Julio Iglesias. Quando já visualizava novamente o sorriso cafajeste de Ademar... Ding-dong!
Já chega! Estou com uma labareda acesa dentro de mim a noite inteira... a semana inteira... há meses... desde o episódio de não-Ademar! Acabou a criatividade... Já utilizei todas as vozes estranhas e diferentes que conheço. Ademar não está, quem está é Artur Osvaldo...
OKEY! OKEY, OKEY!! Artur Osvaldo, você venceu! Entra e toma para ti o que é teu por direito!, grito com minha “mais” própria voz!
Abro a porta e encontro Artur Osvaldo inserido em seu terninho de oficial de justiça.
É impressionante tua paciência... ninguém nunca me quis tanto quanto você..., digo já puxando sua gravata.
Já estou no Piscina Lazer e Cia, sentada em meu banco alto. A culpa é toda de Ademar. Não só dei minha assinatura para Artur Osvaldo, como dei o pouco que eu tinha como garantia, pelos aluguéis atrasados.
Estou na rua. Amarga, fria, suja, barulhenta, de ninguém, cheia de germes, mendigos e prostitutas... onde pessoa alguma saberá que sou uma genuína guardiã de piscina!
Respiro fundo e tento não pensar no anoitecer. Enquanto é dia, tenho meu banco alto.
Poucos pertences consegui trazer. Que fiquem com tudo! Um “tudo” de coisas velhas, sem-graça e de pouco valor. Enquanto Artur Osvaldo se olhava no espelho do banheiro e abaixava com água da pia uns fiapos de cabelos rebeldes da cabeça, eu transferia, provisoriamente para a casa da Das Dores, minha vizinha, a geladeira de laterais não-inox. Assim que me restabelecer, mando buscá-la.
Com o que restara do salário do mês, paguei a sétima parcela da geladeira. Não me sobrou nem para uma diária num hotelzinho de quinta.
Desço de meu banco alto e me debruço no balcão da lanchonete. Oi Valéria! Lá em casa tá dedetizando... tenho muito nojo de barata... será que eu podia ficar uns tempos no seu apê?, pergunto. Ih, minina, dá não! Os minino lá di casa já dorme tudo ansim amontoado..., me responde a moça da lanchonete, deixando à mostra a falta de um molar e um canino.
Tento o Jorge da portaria: E aí Jorge?... Lá em casa tá pintando... mandei fazer umas texturas assim, uns esponjados, pra valorizar a sala. Posso ficar por uns tempos na sua casa? Jorge me olha com uma cara tão “segundas intenções”, que dá até medo. Nem fico para ouvir a resposta.
Caminho desanimada até o quartinho de guardados. Jogo meu corpo sem perspectivas numa cadeira. Olho para o armário do achados e perdidos e vejo uma lona azul enrolada numas varas de ferro. Uma casa! Minha casa! Tiro do armário e vejo que é, realmente uma barraca. Uma barraca de camping lar-doce-lar!
Monto a barraca no fundo do gramado, atrás das árvores, e camuflo com folhas de palmeiras.
Já é final de tarde. O movimento está fraco e todos já estão indo embora. Tranco a porta do quartinho, como todos os dias. Tchau Valéria! Até amanhã Olavo! Vai Sr Irene, vai pra casa!, digo.
Parece que a barra está limpa... vou me esgueirando, atenta a qualquer movimento. Perdi a casa, mas não posso perder o emprego, meu banco alto e minha luneta.
Lá está minha barraquinha toda azulzinha... Coloco minha camisola, meu creme facial, rodelas de pepinos nos olhos (que servem para alguma coisa, mas não sei exatamente para que), afofo o travesseiro e reencontro Ademar! Zzzzzz...


Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


quinta-feira, 14 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XIV – a outra

chego no Piscina Lazer e Cia arfando, preocupada com meu atraso de vinte e dois minutos. Tive que esperar Artur Oswaldo, o oficial de justiça, desistir de tocar minha campainha, para eu sair de casa. Perdi o primeiro ônibus e cá estou, atrasada, suada e torcendo para que Sr Telles, o diretor, esteja trancado em seu escritório.
Jorge da portaria me vê passar e diz baixinho: Hoje o couro vai comer... Desacelero meu passo e pergunto: Quem vai comer quem?, Jorge disfarça e não responde, com cara de “num disse nada!”.
Olavo da administração passa por mim e diz: apostei cemzinho em você, hein!, que é que deu nessa gente? Tô com cara de égua de corrida?!
Valéria da lanchonete faz uns sinais estranhos para mim. Hein?, eu pergunto com total cara de “Ah é...”. Valéria intensifica seus gestos, quase subindo no balcão. Que é que Valéria quer comigo?... não sei se está me xingando ou mostrando um novo passo de dança flamenca! Hein? Hein?, pergunto novamente. Tô cuntigo!!, ela grita mostrando a falta de um molar esquerdo.
Antes que eu desse uma resposta qualquer para Valéria, Sr Telles se aproxima, pegando no meu braço. Ah, é isso, todos já estavam sabendo de minha demissão... Sr Telles, foram apenas vinte e dois, eu juro, pode perguntar pro Jorge da portaria... digo isso só pensando em meu querido banco alto... se eu perder esse emprego, perco o banco alto, perco minha luneta, perco minha dignidade – por menor que ela seja – perco tudo que eu tenho!
Minha filha, não me interessa sua vida particular... se foram vinte e dois, vinte e três... sei bem como é essa vida de mulher solteira... Estou aqui só pra lhe dizer que Vânia Stéffani veio para somar! Para somar!! Entenda bem... Sr Telles diz isso e se afasta a passinhos acelerados. Chega a ensaiar umas corridinhas de um segundo e meio e retorna às passadas dignas de um homem de sua idade.
De luneta em punho, subo em meu banco alto. Demitida não fui. Nem mesmo advertida. As coisas parecem bem sinistras por aqui. Hoje, nem mesmo o sol parece ter bravura suficiente para dar as caras.
Quem será essa Vânia Stéffani que veio para somar? Somar o quê, minha gente? Tá todo mundo louco!!
Como de costume, verifico através de minhas lentes da luneta, se tudo por aqui está em paz. Fora o Jorge me dizer que hoje o couro vai comer, o Olavo apostar “cemzinho” em mim e a Valéria dançar flamenco na lanchonete... me parece tudo tranqüilo, tudo em p... pa-pa-pi-pi-pi-pi-po-po-pu-pu... ÁHÁHÁHÁHÁHÁHÁHÁH! Eu entendi... olho novamente através da luneta, só para ter certeza!! ÉÉÉÉ... eu entendi tudo! Minha respiração acelera... sinto minhas glândulas salivares esguicharem jatos de saliva azeda... minha garganta se fecha... o ódio arregala minhas narinas...
Vejo uma outra! Uma outra guardiã, num outro banco alto, do outro lado da piscina semi-olímpica... ela usa um binóculo super-ultra-infra-moderno totalmente ridículo!
Guardiã de piscina, no Piscina Lazer e Cia, há apenas uma: EU!
Vânia Stéffani não veio para somar! Veio para dividir... me dividir, me dilacerar, me partir em mil pedaços... o Piscina Lazer e Cia é pequeno demais para nós duas!! O couro vai comer!!
Me sinto possuída por um gremlin geneticamente modificado... Desço de meu banco alto. Apenas a luneta não me será arma suficiente! Penso se no achados e perdidos não teria uma AR 15, uma bazuca ou uma machadinha... O meu chinelo! O meu chinelo serve...
De luneta e chinelo em punho, vou em direção ao banco alto de Vânia Stéffani. Minha garganta continua fechada e a saliva azeda começa a espumar pelos cantos da boca.
Chego chutando cadeiras, mesas e o que mais está pelo caminho. A outra percebe minha fúria e se encolhe no banco alto...
Atiro o chinelo e parto para cima. Vânia Stéffani desce e percebo que ela não é tão franzina quanto me parecia através da luneta. Não importa!! O cargo é meu! O banco é meu! Os afogados são todos meus!
Eu e a outra nos atracamos ali, na grama do clube. Utilizo todos meus métodos de luta e artes marciais... Vânia Stéffani é até fortinha, mas não é duas!! Dou-lhe uma rasteira... a outra corre... vou atrás com o firme e irrevogável propósito da SUBTRAÇÃO!
Olavo apostou “benzão”...


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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


quinta-feira, 7 de maio de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XIII – infância perdida

puro nepotismo!, diz Olavo, o assistente administrativo do Piscina Lazer e Cia. Os funcionários estão todos reunidos no pátio, próximo à lanchonete. Alguém diz oscilando a voz, entre a bravura de “Che” e a covardia de Scoobydoo: é cabide de emprego!
Esse último aí, até que eu entendi, mas “nepotismo”, me parece primo do exorcismo, do fascismo ou do bandalismo.
São seis e dezessete da manhã. Um nevoeiro esbranquiçado ainda paira sobre nós, os funcionários reunidos e “nepotizados”, segundo Olavo.
Uma mocinha muito branca, aparece de mãos dadas com o diretor, Sr Telles. Ele, muito sorridente por entre a neblina “nepotizante”, nos apresenta a moça miúda e curvada sobre uma pastinha polionda: uma ótima manhã à todos! Esta é Melinda. Digam “oi” a Melinda!, respondemos num coro totalmente “nepnotizante”: ooooi Melinda!
Esta é a nova psicóloga do Piscina Lazer e Cia. Vocês terão sessões em grupo e individuais. Percebo que alguns de vocês trazem certas tensões, mágoas e ressentimentos para o local de trabalho... tsc! Tsc! Isso não é bom.
.. Discursa o diretor enquanto Olavo balança a cabeça negativamente.
Começo a achar que nepotismo tem alguma coisa a ver com “coisa ridícula”.
A mocinha miúda começa a falar algo sobre Gestalt, psicoterapia, comportamentalismo, psiquê, id... estamos todos seguindo suas instruções para o relaxamento do corpo e mente e para a integração entre parceiros de trabalho... Me parece Yoga para bebês...
Olavo está ao meu lado fazendo a posição “peixe”, indicada por Miúda, enquanto fala comigo gesticulando o canto da boca: acredita que ela é sobrinha do cara? Quem precisa de psicóloga por aqui? Eu não sô maluco? Você é?, chego a pensar em ser bastante sincera em minha resposta, mas acho melhor dizer qualquer coisa: nããão, eu não!, Olavo continua, agora em posição de sementinha que desabrochará: a menina acabou de sair da faculdade... nós vamos ser o que? Cobaias? Puro nepotismo..., caramba! Tô ficando um pouco preocupada... será que esse tal de nepotismo tem a ver com abdução, experiências científicas em corpos humanos... contrabando de órgãos!!
Fim. Estamos todos nos dispersando, Sr Telles já se recolheu em seu escritório... cada um segue para seu posto.
Eu deveria estar mais relaxada... mas esse nepotismo me deixou um pouco tensa. A miúda não pára de me olhar. Ela me chama e pede que eu a acompanhe. Por precaução, levo minha luneta em punho, qualquer coisa, dou na nuca dela...
Sentamos no quartinho de guardados. Ela começa a falar alguma coisa e eu resolvo esclarecer: nada contra o nepotismo se for depois de morta. Acho até legal, muito nobre a pessoa doar pra quem precisa, mas no meu rim ninguém mexe, entendeu?!
A miúda não parece se assustar e responde: pelo jeito, teremos um trabalho árduo pela frente.
Essa parte eu vou acelerar um pouquinho, por que foram horas e horas de terapia. Vou dizer para vocês que foi até bem interessante me ver no útero de mamãe e reavivar toda minha infância... segundo a miúda, todos meus traumas e aflições estão lá, na infância. É preciso resgatar o seu “eu” perdido!, diz ela muito segura, baseada em sua vertente “nepotissíquica”.
Estou um pouco estranha. Me sentindo pequena. Uma vontade enorme de sair correndo pelo pátio do clube, chupar picolé e fazer xixi nas calças de tanto rir. Me bateu até uma saudadezinha das Paquitas... meu sonho era pintar o cabelo de louro e ser Paquita!
O armário de achados e perdidos do quartinho é uma mina interminável! Só coisas divertidas... um Shrek de pelúcia, várias bárbies, bonequinhas de pano e até uma suzie esportista, super parecida comigo!
Levo todos os amiguinhos e decoro o banco alto. Se o chefe reclamar, mando ele se resolver com a sobrinha. Foi ela quem me mandou resgatar a infância perdida.
Passo a tarde inteira brincando de boneca. Um rapaz magrinho cisma em se afogar justamente na hora em que o Shrek já estava quase conquistando a Suzie... Ah! Toma aí essa bóia de dinossauro verde! Se agarra nela e sai batendo as pernas...
Quando eu crescer, vou bem procurar no dicionário a palavra NEPOTISMO!

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


quinta-feira, 30 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XII - "fake"

tem um tal de Artur Oswaldo Pimenta neto, que não sai do meu pé. Êta homem mais grudento... infelizmente, não se trata de amor, paixão ou labareda... puramente o cumprimento da lei. Se me quisesse beijos, abraços, cafunés e sussurros ao pé do ouvido... estaria eu, pronta a atendê-lo! Mas o que quer de mim, não posso dar... ao menos não por livre e espontânea vontade... assinatura minha, Artur Oswaldo Jamais terá... Não estou ciente de prazo de despejo algum!!
Algumas manobras tenho feito para não encontrar Artur Oswaldo... telefone, não atendo mais. Já avisei Das Dores, a vizinha de mamãe, que se alguma coisa acontecer, se mamãe tiver um aneurisma, uma embolia, precisar de alguma coisa ou apenas quiser falar comigo, que ligue para o Piscina Lazer e Cia. Já não posso mais sair no horário de sempre. Saio de casa duas horas antes por precaução... e ainda faço uma média com Sr Telles: trabalho é o meu nome!, Cléverson, o porteiro do prédio, é “parceiro”. Semana passada foi assim: ... sinhô dotô, ela num sincontra não sinhô... foi bem lá pras banda de minas...”, e ontem: “... ô sinhô dotô, ela bem foi visitá a tia lá pr’aqueles canto lá de Perequê...”
Todos os artifícios de que disponho já foram utilizados. Artur Oswaldo já descobriu que saio duas horas antes, não me liga mais, nem dá papo para o porteiro.
Se sou eu quem está sendo despejada, basta que “eu” não seja “eu”. Vovó ficou careca e sem sobrancelhas muito cedo. Muito gentil da parte dela me incluir em seu testamento. Após seu falecimento, recebo uma caixa de papelão lacrada com múltiplas fitas daquelas que grudam e não desgrudam por nada nesse mundo... bem, recebo como herança, um porta-retrato de metal vagabundo, um urinol e sua peruca... vovó nem imaginava o quanto me seria inútil o porta-retrato e o urinol... mas o quanto utilíssima seria a peruca neste momento de minha vida.
Bastou a peruca, um batom forte, uma almofadinha na bunda... Artur Oswaldo, com seu terninho de oficial de justiça, entra no elevador e eu saio. Simples assim! Pelo jeito, estou irreconhecível.
No ponto de ônibus, tudo tranqüilo... Gostosa!, grita um rapazinho que passa de bicicleta. A moça sentada até que é jeitosinha... Dá eu aí nessas carne?!, agora o elogio vem da rapaziada logo ali na obra do prédio ao lado. A carne sou eu? Eu?!
O ônibus chega. O trocador acaricia meus dedos ao me entregar o troco. O careca duas cadeiras atrás me fala obscenidades. O rapaz com fones de ouvido e pastinha de “boy” nas mãos me lança olhares estilo “míope”... Caramba! Tô agradando!
Desço do ônibus e no caminho para o Piscina Lazer e Cia, paro numa daquelas boutiques que vendem de “um tudo”. Cílios extra volumosos, cola para cílios extra volumosos, peitos de silicone, sandália dourada salto dezessete, “make-up” completo... tudo pago com chequinho “seja o que Deus quiser”.
Do quartinho do Piscina Lazer e Cia para o mundo... uma nova mulher! Nunca pensei que a velha peruca de vovó fosse para mim, o início de uma nova era!
Dou uma voltinha pelo pátio... Esses peitos cinqüenta e dois agora pertencem a mim! A nova bunda me inclui no “hall” das brasileiras genuínas! Como é gostoso ser gostosa... Ah, se Ademar me visse...
O rapaz ali sentado na beira da piscina disfarça, mas sei que ele me quer... o poder a mim instituído pela peruca de vovó, ordena que siga seus instintos, rapaz!
Um dedinho chama e todo o corpo do rapaz atende. Ele verifica se ninguém nos observa e me segue até o outro lado das árvores do gramado.
Agora sim há labareda, beijos, abraços, cafunés, sussurros ao pé do ouvido e “cositas más”.
Que vitalidade tem o rapaz! Percebo que a peruca de vovó voa longe... sinto que um de meus cílios fica preso no sovaco do rapaz... sinto também um calor intenso nas costas. Não pela “labareda”, mas por minha brasileiríssima bunda que agora se instalara bem acima dos rins. Estaria eu me desfazendo?!
No instante em que tudo ia bem, o rapaz pára e me olha muito desconfiado. Um de meus peitos cinqüenta e dois estava agora grudado a sua testa. Eu, toda desconjuntada, me desfazendo. Ele, pisando na peruca de vovó, arrancando o peito da testa, com cara de indignação...
O rapaz sai, me deixando ali, frente a frente com meu eu verdadeiro. O “eu” que em algum momento, será obrigado a assinar a carta de despejo e fazer a vontade de Artur Oswaldo. Ei! Me espera! Nem tudo é “fake”!

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:


quinta-feira, 23 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo XI – eu eternizada

tenho pensado muito em Ademar... a última semana foi morosa, sem nenhum afogamento após o episódio da “senhora de todas as santas”, nenhuma mulher estatelada se lambuzando de blondor, nenhum entregador de pizza... nem mesmo não-Ademar...
Tenho realmente pensado em Ademar... Como seria minha vida hoje, se estivesse casada com ele? Teria no mínimo quatro filhos, não estaria sendo despejada, teria uma carteira de dinheiro, com dinheiro dentro... e fotinhas 3X4 de toda a prole dentro daqueles plastiquinhos, tão difíceis de se achar hoje em dia.
Penso também, que na mesinha de cabeceira ao lado de Ademar, teria minha foto, vestida de noiva, deixando aparecer meu rosto pendido, dentre flores do campo de meu bouquet. Em seu escritório, foto minha de férias em Porto Seguro... Em seu protetor de tela, no computador, eu, estendida numa pedra de uma cachoeira, quando acampamos na Serrinha... No chaveiro de casa, meu rosto pequenino apoiado suavemente numa rosa vermelha... Na porta da geladeira, eu, numa carroça puxada a boi, no hotel fazenda, nas férias de julho... na estante da sala, em cima do piano (com certeza teríamos um piano), no passa prato, dentro do armário, na escrivaninha do escritório... eu, eu, eu!
Viro minha luneta ao contrário e vejo meu rosto refletido na lente. Ninguém me tem! Ninguém me tem! Uma fotinha que seja... preto e branco ou amassada, digital ou Polaroid... chego à triste conclusão que sou só.
Já escutei por aí, que a fotografia eterniza o momento. Eu, uma brava guardiã de piscina, não seria eternizada por ninguém... seria esquecida, pois não havia quem quisesse uma foto minha. Nem mesmo mamãe.
Quando uma lágrima extremamente salgada acabara de percorrer minha bochecha e já escorria pelo canto da boca, ouço sons estranhos. Me parece conversa entre marcianos. Trroulevous trrébian monamurrr jevébian lafotô... Estarei eu enlouquecendo? Perdendo os sentidos? As pessoas falam e não compreendo nada! Serei trancafiada num manicômio e esquecida, nem uma foto para contar história, comprovar que eu, o banco alto e minha luneta realmente existimos.
Desço rapidamente de meu banco alto. Continuo a escutar pessoas falando e não compreendo nem mesmo uma palavra... Iltravaialapost quésquevuvulêalê mafême. Me sinto desorientada e ponho a mão na testa, verificando a temperatura.
Vejo Sr Irene do outro lado da piscina funda arriscando passos de rumba. Avisto Kleber, o rapaz da faxina. Me aproximo dele. Ele olha para mim com seu olhar nordestino bem normal e começa a falar: Viuaíquiojenumtemistura êtadiretômarmãodivaca quinemumtikdá sómarmitasemistura émacarrãocumovoesó!
Eu estava mesmo enlouquecendo! Nada que Kleber dizia fazia sentido para mim... Sr Telles, o diretor, cutuca o meu ombro... Viu que chique? Até francês agora freqüenta o Piscina Lazer e Cia, fique de olho para que este casal seja muito bem recebido, a divulgação de nosso clube no exterior é de extrema importância para nós... dá status!
Eu entendi! Entendi tudo, tudinho que Sr Telles disse... então não são marcianos, são franceses...
Uma mulher loura e bonita, de pele muito branca e língua enrolada no “erre”. O homem devia ser muito branco, mas no momento, estava tostado de tanto sol brasileiro.
Uma máquina eternizadora! Uma moça, mais jovem, talvez filha, sobrinha ou amiga, tira fotos do casal...
Chego de mansinho e tento me posicionar próximo ao casal. Se mamãe ou Ademar não me tem aqui no Brasil, alguém me terá então na França! Deseternizada é que não ficarei!
Me aproximo sorridente. O casal percebe que estou ao seu lado e se afasta. Só de pensar em minha imagem eternizada pela Europa, me sobe um frisson incapaz de me fazer desistir...
Tento um outro ângulo. O moço torrado de sol parece se incomodar com minha presença e puxa sua francesa pelo braço. Tento uma investida mais agressiva. Num salto abraço os dois, em simultaneidade com o click que me fará eterna enquanto estampa!
O casal monamur se cansa e se senta. A mocinha com a máquina em mãos pensa que me engana.
Percebo o ângulo da máquina e sento numa cadeira, logo atrás do casal simpático. Tenho cara de “tô nem aí” e observo, muito interessada, os urubus sobrevoando a montanha logo ali... Click!
Ao menos uma certeza eu tenho. O nariz e parte do queixo de uma brava guardiã de piscina serão eternizados pelas bandas da Z’oropa!


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quinta-feira, 16 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo X – o reco-reco dos meus sonhos

moça, moça! Ajude minha mãe, ela está se afogando! Chama ao pé de meu banco alto uma mulher muito nervosa. De pronto, desço e mergulho na piscina funda. Percebo o quão vigorosas e ritmadas estão minhas braçadas. Avisto o alvo. Uma senhora com apenas os olhos e a testa acima da água, pede socorro com as sobrancelhas...
Me aproximo, envolvo um de meus braços em seu pescoço e encaixo a mão debaixo de seu sovaco, ou pelo menos tento, pois meu braço não tem “circunferência” suficiente para envolver tal alvo corpulento. Percebo que o corpanzil da mulher demora a sair do lugar. Com o braço livre, tento repetir as braçadas vigorosas com que rapidamente cheguei ao alvo. Esforço inútil.
Vejo que a mulher respira normalmente e conversa comigo, enquanto evoco todos os poderes de “Grayskull”... Minha filha, ainda bem que você apareceu... por Santa Cecília e Santa Terezinha!! Que seria de mim sem uma salva-vidas como você... Falei com Gláuce que senti hoje pela manhã, que minha coxa parecia mais rija... é a danada da câimbra... POR SANTA EFIGÊNIA! Juro por tudo que há de mais sagrado que como duas bananas amassadas com aveia no café, todo santo dia... Não há potássio que me livre dessa agonia... Santa Maria mãe de Deus que Aristidinho preveniu... Ah, minha Santa Eufrásia que Emília e Didinha também já tinham avisado que esse negócio de piscina e câimbra num se juntam...
Incrível o fôlego de meu alvo! Eu já havia feito todas as técnicas de respiração alta, média, baixa, passando pelas três faixas, estilo cachorrinho e estilo boca e nariz juntos... Graças a todas as santas evocadas por aquela senhora, encosto meus dedos exauridos na borda.
Tento empurrá-la para fora da piscina. Em vão. Move-se três centímetros acima e de volta todo o corpanzil abaixo. Ponho as mãos da senhora segurando na borda e resolvo tentar minha técnica “míssil”. Prendo a respiração e nado até o fundo da piscina. Encosto os pés paralelos no chão, encolho as pernas e vuuuul! Me impulsiono diretamente para as nádegas de meu alvo... Ela, profere um singelo “ui” e continua estática. Eu, dou um grito de horror que se transforma em bolhas embaixo d’água e subo novamente em busca de ar desesperadamente.
Já passô, já passô a danadinha da câimbra... se preferir posso sair sozinha... Diz a senhora já colocando os pés nos estreitos degraus da “pobre” escadinha de alumínio. Faz essa gentileza!, Respondo com certo ar de derrota.
Vejo de longe que a filha abraça a mãe e a seca com uma toalha.
Ainda recobro o fôlego quando a filha se aproxima. Agora, percebo que seu rosto me é familiar. Muito obrigada, você salvou mamãe!, Diz ela me estendendo o braço definido.
Não só o braço é definido e definitivamente capaz de acenar para todo um batalhão da guarda militar, sem que uma balançadinha afete seu humor; mas todo o seu corpo. As pernas parecem coxas peladas e cruas de codornizes, com feixes de músculos saltitando com seus movimentos. A barriga... ah esquece o tanquinho! Falo de um imenso e poderoso reco-reco de pura madeira maciça... minha barriga está mais para cabaça de berimbau... Mas que droga! Quero esse reco-reco pra mim...
Não lembra de mim? Fomos da mesma turma na faculdade de Educação Física... Tá lembrada? Da Universidade Santa Luzia de Lavrinhas... Como um soco no estômago! Obvio que eu me lembrava de Gláuce, só não queria que fosse verdade. Eu, uma totalmente “desmuscularizada” e inteiramente incapaz de dar “tchauzinho”, frente a frente com o meu sonho de consumo... infelizmente sob o poder de Gláuce.
Na época de faculdade, eu tinha músculos definidos tal qual Gláuce. A partir deste exato momento, às onze e vinte e três da manhã, tudo que farei, será em prol de meu corpo perdido.
... O banco alto torna-se um moderno equipamento multifuncional... trabalho bíceps, tríceps, panturrilha e parte interna da coxa... Up, up! É preciso correr, correr e correr ao redor da piscina rasa...
O diretor, Sr Telles, nem pode reclamar, já que meu trabalho está sendo feito. Apenas não desperdiço nem um momento sem me exercitar. Depois de tirar folhinhas e pequenos insetos da piscina com a enorme peneira, aproveito e a utilizo como alteres... Latinhas e garrafas jogadas pelo chão? É pra já! Pernas esticadas, corpo alongado... e um! Já estou próxima à latinha de refrigerante jogada ao chão... e dois! Pego a latinha... e três! Me direciono para a lata de lixo... e quatro! CESTA! Latinha na boca do latão!!
Ai chega... Gláuce que fique com seu reco-reco... Cansei...

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quinta-feira, 9 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo IX – bunda no braço

Hoje o vento não sopra, arrota um bafo quente e seco. O calor está mais intenso que ontem, que anteontem e que ante-anteontem.
Mesmo aqui em cima no banco alto, não há brisa. O guarda-sol parece não conter os raios e sinto o sol queimando o topo da cabeça. O suor me desce o rosto e respiro com dificuldade. Abro e fecho os dedos dos pés para refrescar.
De luneta em punho executo meu serviço habitual. Observo banhistas dentro e fora da piscina. Crianças brincam para lá e para cá. A moça que costuma se lambuzar de blondor na beira da piscina, hoje está tranqüila, arrancando pêlos da virilha com pinça.
É interessante. Tem dias em que as pessoas parecem tão normais... Passeio minha lente entre os associados e por todo o pátio. Ôpa! Vejo uma coisa estranha... Volto minha lente procurando o que vejo, sem acreditar. Perdi! Perdi!... Aha, achei! É inacreditável... como alguém teria coragem?
Não, deve ser o calor na cabeça que começa a me fazer delirar... A nécessaire está aqui em cima e resolvo colocar minhas lentes para astigmatismo. Tenho certeza, com lentes, perceberei que o que vejo não é o que realmente vejo!
De lentes e luneta, foco novamente na “coisa” inimaginável. Infelizmente continuo a ver o mesmo. Ainda sem acreditar, coloco também meus óculos de grau. Quem sabe um acúmulo de mesmas funções não consiga me ajudar a ver que o que vejo, não é verdadeiramente o que vejo?
Negativo. Ainda está lá, movimentando-se vagarosamente, sem pressa alguma... Um despautério!
Devo ter uma lupa em algum lugar por aqui em minha nécessaire... Achei! Sabia que além de queimar formigas, ainda encontraria alguma utilidade para ela!
Lentes, óculos, lupa e luneta. Sou mesmo uma pessoa descrente. Preciso tentar, com até o último recurso, ver, que o que eu vejo, repetidas vezes, não é o que vejo...
É. É realmente, verdadeiramente, indubitavelmente uma bunda branca, bem no foco de minha luneta.
Dou um giro com minha lente e vejo que ninguém se espanta. Mais espantoso que uma pessoa estar de bunda de fora num clube familiar, é não existir mais espanto entre as pessoas que vêem um indivíduo de bunda de fora num clube familiar.
Daqui de cima, não enxergo a bunda sem luneta. Preferia advertir um milhão de buços descolorando que uma única bunda de fora.
Desço de meu banco alto e chamo o segurança para me acompanhar na empreitada. Enquanto andamos, penso em como abordar uma bunda passeando livremente. Senhor, sua bunda está de fora... ou, o estatuto do Piscina Lazer e Cia prevê como contravenção, deixar à mostra suas partes traseiras abaixo do Cox e acima das coxas... ou, senhor, sei que o calor está quase insuportável, mas temos crianças no recinto...
Dou algumas voltas pelo pátio e pareço perder o alvo de vista. O segurança me segue e me olha estranho, sem entender por que fora chamado.
Não é possível! Eu vi, através de quatro lentes, glúteos brancos e totalmente desinibidos...
Ponho a luneta no olho direito e tento localizar a bunda. Aháá! Grito, assustando o segurança, que ri, mostrando pilastras de cuspe nos cantos da boca.
Achei a bunda! A enorme bunda há poucos metros de mim e do segurança. Sigo olhando através da lente e andando a passos curtos. Não perco a bunda de vista nem um segundo.
Acho que estou bem perto. Por que o segurança está tão quieto? Já deveria ter reagido diante tal obscenidade! Estou bem próxima do alvo extremamente branco. Resolvo, não sei por que cargas d’água, tardiamente, descer vagarosamente minha lente. Ao movimentá-la para baixo, vejo um antebraço, uma mão e um rosto expressivamente atônito apoiado nela. Geralmente, o que viria logo abaixo de uma bunda, digamos, num corpo normal? As pernas... Aqui tenho um antebraço e um segurança me olhando irritado.
Retiro do olho minha luneta e percebo que estou quase no colo de um senhor de óculos, bigodes, muitos quilos e um braço dobrado abaixo da cabeça, tentando relaxar numa espreguiçadeira.
Desculpe-me senhor! Apenas verificação de rotina... pensei, por um instante, que seu braço dobrado fosse uma bunda branca...
O senhor do braço não deu queixa na diretoria, talvez por que fosse obrigado a mencionar “bunda”. Quanto ao segurança, fui obrigada a sair com ele em troca de silêncio... Ai banco alto querido, até pilastras de cuspe eu enfrento para manter-me ao teu lado...

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quinta-feira, 2 de abril de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo VIII – vai que eu te salvo

o que quer que eu faça é nele que eu penso... Desde o episódio de não-Ademar, que não aplaco minha enorme vontade de beijar boca de homem. Observo do alto de meu banco, através de minha luneta – feliz da vida com meu novo uniforme. Tudo parado aqui por fora e um rebuliço enorme aqui por dentro...
Para variar, minha única possibilidade a curtíssimo prazo de beijar na boca é salvando alguém.
... Vejo através de minha luneta que só há dois espécimes masculinos no momento por aqui. Sr Irene e um homem na casa dos cinqüenta, de óculos, calças jeans e camiseta. Sr Irene já teve sua cota de salvamento, me resta o outro.
Para salvá-lo de afogamento preciso, ao menos, que ele esteja dentro d’água, mas o livro que ele lê compulsivamente parece muito mais interessante que água.
Me aproximo assim, casualmente. Estou há um metro e meio e ele nem me percebe.
Resolvo puxar conversa. O que está lendo? O homem levanta os olhos do livro e responde: No Caminho de Swann, já leu? Ao todo li uns três livros na minha vida, mesmo assim por que fui obrigada na escola. Já sim... é do mesmo autor de O Alquimista, não é? Chutei pessimamente mal. Não, eu estou lendo Proust, ele responde com cara de enjôo. Caramba, este deve ser um desses autores novos de quem nunca ouviu falar...
Tudo bem, o início de nossa conversa foi bola fora, admito. Mesmo assim continuo, já que meu objetivo é fazer com que ele largue o livro e entre na piscina.
O sol está lindo hoje, não vai dar um mergulhinho? Ele me responde negativamente balançando a cabeça. Continuo querendo ser engraçadinha: Tá de calças jeans por quê? Escondendo micose?... Desta vez, nem obtenho resposta.
Olha, a água está deliciosa, na temperatura ideal para umas braçadas... O homem fecha o livro e olha para o chão. Não sei nadar, ele responde. Fico uns bons vinte minutos convencendo-o. Digo que isso não é empecilho para se deixar de curtir um bom banho, já que há a piscina rasinha para bebês... que seria o mesmo que se afogar numa bacia... e que se alguma coisa fugir ao controle, estou aqui... A verdade é que usei 75% de toda minha criatividade tentando convencê-lo. Só depois de oferecer-lhe boinhas de braço, esquecidas nos achados e perdidos, é que ele resolve entrar na piscina rasa.
Lá está ele, feliz, mas estático. Seu medo é tanto que parece não mover um músculo. Assim fica realmente difícil iniciar um salvamento, se nem o queixo ele emerge.
Tento animá-lo dançando macarena na borda da piscina, suas sobrancelhas até arqueiam, mas ainda não tenho subsídios suficientes para um salvamento.
Lembro de não-Ademar. Uma fogueira reacende dentro de meu peito e preciso, desesperadamente, iniciar um boca a boca. Olho para os lados, não vejo ninguém. Só o Sr Irene deitado numa espreguiçadeira alisando a própria barriga e brincando com seu umbigo cheio d’água.
Sento na borda da piscina e digo ao homem que irei fazer uma coisa muito bacana, bem mais divertida que Proust... Começo então a bater as pernas, criando ondas e uma montoeira de água no rosto dele. Agora sim, há um afogamento...
Me atiro na água com todo o estilo “salva-vidas” e o trago pelo pescoço. A piscina é muito rasa e eu me levanto e fico de pé. O homem, totalmente desorientado, se debate na água, sem conseguir se levantar. Com dificuldade o retiro da piscina.
O homem está estirado na borda, vomitando água e se debatendo. Me ajeito para o tão esperado boca a boca, puxo uma quantidade grande de ar para os meus pulmões, me preparo para a execução e... quando me aproximo, com todo meu empenho de guardiã de piscina, vejo uma situação altamente inesperada. Uma enorme meleca presa ao nariz, escorrendo pelas bochechas do homem. Hesito. Encho os pulmões novamente, e... não há possibilidade... o homem ainda parece não respirar direito... mas hoje, boca a boca, não vai rolar... sopro de longe e abano com as mãos...

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quinta-feira, 26 de março de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo VII – num dia catatau, noutro, papai noel

antes que me esqueça, meu banco alto já voltou da manutenção. Custava me avisarem?!
Todo ano o Piscina Lazer e Cia organiza uma grade de programações para seus usuários. Com a crise, alguns associados se desligaram e a diretoria resolveu adiantar algumas festividades para angariar novos sócios. Hoje então, é dia de baile à fantasia. Todos estão ocupados nos preparativos para logo mais.
Os funcionários recebem fantasias alugadas pelo Sr Telles. Nós, mais que ninguém, devemos dar exemplo e estarmos bem caracterizados.
Sinceramente, quando me disseram que a festa seria hoje, pensei em não levantar da cama, ou ficar o dia inteiro sentada num banquinho baixo olhando para minha geladeira de inox (não menciono as laterais).
Ano passado o sr Telles foi muito “generoso” e me alugou uma suntuosa vestimenta de Catatau. Imaginem o calor debaixo de uma enorme manta de pêlo de urso e ainda ser obrigada a enxergar através de uma imensa boca aberta de Catatau sorridente... Querem saber o quão agradável fora minha noite festiva? O chato e pegajoso do sr Irene veio de Zé Colméia. Adivinhem? Resolveu andar de braços dados com seu fiel amigo até a festa acabar. Muito gentil, enfiava salgadinhos e mini sanduíches de presunto pela boca de Catatau, exatamente onde estavam meus olhos.
Estou no quartinho de guardados e vejo uma arara com diversas fantasias penduradas com o nome de seus respectivos. Odalisca para Marlene da limpeza, super-homem para Jorge da portaria, Minnie para Georgete da lanchonete, novamente capitão da marinha para Sr Telles... Vejo meu nome num saco preto pendurado a um cabide... Pela abertura nos fundos do saco vejo a cor vermelha e branca... Sr Telles entra neste instante. Não quero parecer curiosa e finjo pegar a caixa de primeiros socorros.
Alguém se feriu? Cuidado menina, o que não precisamos é de um processo nas costas... diz Sr Telles com ainda mais tufos de cabelos grisalhos saindo pelas narinas e ouvidos. Cólicas! Respondi.
Sr Telles não parava de me perguntar coisas inúteis e recomendar coisas ainda mais inúteis... minha cabeça estava na fantasia... eu não queria parecer curiosa, mas eu estava extremamente curiosa... Que fantasia teria as cores vermelho e branco? Estaria eu prestes à me fantasiar de bandeira do Peru?... Sr Telles fala alguma coisa sobre crianças que mijam na piscina rasa, no momento em que me vem a mente uma visão aterradora! Sr Telles seria capaz de me alugar uma fantasia de Papai Noel?! Enquanto todos os outros funcionários eram mulheres-maravilhas, havaianas, super-homens, odaliscas e super-poderosas... eu seria o Papai Noel?
Gotejo quase um vidro inteiro de Buscopan na boca. O diretor percebe que não paro de olhar para meu saco preto e diz em posição quase militar: E aí? Gostou da sua roupa? Acho que fui bastante criativo este ano!
Lhe envio um sorriso altamente duvidoso, entre o ódio e o sarcasmo, antes dele sair.
Prefiro ir nua a me fantasiar de Papai Noel em pleno mês de março... como Sr Telles pode me odiar tanto assim?!... Começo a rasgar o plástico com a mesma voracidade em que me imagino dando pauladas com uma bisnaga dormida na cabeça do Sr Irene vestido de duende...
Estou com a roupa nas mãos. Apenas duas peças. Não são barba e gorro... choro de felicidade, muita felicidade, enquanto esfrego no rosto a lycra macia de meu maiô vermelho... Há anos que desejo um uniforme decente de guardiã de piscina. O maiô vermelho e boné com cruz branca estampada mais lindos que já vi! Tive "quase" vontade de acariciar a testa de Sr Telles.
Troco de roupa rapidamente, pego minha luneta e vou ao encontro dos primeiros convidados. Me sinto potente. Sinto que minhas narinas estão dilatadas. Caminho como se estivesse numa passarela... vejo mesmo semelhança entre minha orelha e a de Gisele Bündchen... Se neste instante me chamassem, Pamela Anderson! Não seria, de modo algum, mera coincidência... Sem nenhuma intenção prévia, eu desfilo e aceno como se agradecesse a faixa e a coroa de miss Piscina Lazer e Cia.
Duas crianças fantasiadas se aproximam. Estou com o humor nas alturas e lhes dou atenção. Um deles me pergunta: O quê que você é? Um tomate?

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo

quinta-feira, 19 de março de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo VI – roubaram meu banco alto

o que é menos odioso? Acordar logo cedo com uma ordem de despejo à sua porta, ou descobrir mais três ramificações de estrias na própria bunda?
Não me parece mesmo uma boa maneira de começar um dia ensolarado... infelizmente, essas duas coisas me pertencem... Pertencem mesmo? Tenho pensado muito no que tenho. Talvez pensado mais no que não tenho.
Chego à conclusão que de meu, meu mesmo, não tenho nada... minto, tenho a geladeira de laterais de não-inox, se conseguir pagar todas as vinte e quatro prestações.
Não tenho casa própria, carro, namorado, peitos de silicone, nem home theater.
Estou eu, neste exato momento, fechando os olhos para não ver e abrindo a boca para não sentir. Um de meus braços segura a mochila e o outro se agarra à barra de ferro do ônibus – que por falar nisso também não é meu, é mais que coletivo! Quase fazendo cócegas na ponta do meu nariz, estão os pêlos do sovaco de um rapazinho magro de camiseta “mamãe sô forte”, cabelos descoloridos e fones nos ouvidos. Fecho os olhos, respiro pela boca e finjo estar num belo e caríssimo resort em Porto de Galinhas. O motorista mal-humorado freia e sou obrigada a abrir os olhos, pois a força brusca me projeta para cima de uma senhora com o dedo mindinho no nariz. Peço desculpas à velhinha e tento voltar para meu posto logo abaixo do sovaco do rapaz. Para meu infortúnio, todas as pessoas que lá estavam, em pé como eu, rapidamente se recolocam e não sobra espaço para mim. Foram exatamente dezoito minutos debruçada sobre a velhinha, que esquecia da minha proximidade e enfiava novamente o dedo no nariz. Em seguida ela lembrava de mim, tirava o dedo e sorria.
Bem, até aqui já contabilizo uma ordem de despejo, três ramificações novas de estrias, um sovaco de adolescente na cara e uma velhinha de rosto colado ao meu tirando meleca com o mindinho.
Ok! Acho que nada mais, além de coisas boas, muito boas podem me acontecer. Estou na porta do Piscina Lazer e Cia. Por enquanto tudo normal. Jorge da portaria passa meu cartão de ponto, me dá o resumo do Big Brother de ontem e olha para minha bunda quando entro... tudo normal.
No vestiário coloco o maiô e o boné. Fico pensando... nada é mesmo meu. Nem um uniforme descente, daqueles estilo “Pamela, de Baywatch”, eu tenho. A verdade é que ninguém aqui se importa comigo. Há anos que sonho com um maiô e boné vermelhos com uma cruz branca no centro... com certeza me concederia maior respeito e faria subir minha auto-estima pelo menos uns três pontos.
Pego minha luneta e verifico que até aqui está tudo tranqüilo. Cumprimento alguns associados, fujo do chato do Sr Irene e... e... cadê meu banco alto? Roubaram meu banco alto! Levaram meu banco alto!!
Me tirem tudo, mas não levem minha luneta e meu banco alto! Eu olho para todos os lados e não acho meu querido e tão fiel banco alto... O que querem de mim? Que eu trabalhe com os pés fincados ao chão?! Eles não entendem, ninguém entende...
Levaram o banco e largaram o guarda-sol... Porcaria de guarda-sol! Chuto-o e penso numa maneira de me manter íntegra, já que até agora me submeti à um despejo, três estrias, um sovaco e um mindinho no nariz...
O mastro! O mastro de luz é alto, certamente alto o suficiente. Me agarro entrelaçando as pernas e os braços no enorme pau de ferro. Calma! Eu era ótima em pau de sebo nas festinhas da escola. Deve ser a luneta que me atrapalha a subir. Ponho a luneta no chão. Tento novamente ainda com mais vigor... Meu Deus! Para onde foram meus músculos? Não subo nem trinta centímetros e escorrego mastro abaixo.
Uma sensação horrível de abandono me toma. Despejo, ramificações, sovaco e mindinho sou capaz de suportar, mas não me tirem o banco alto...
Olho ao redor. Procuro altura em todos os cantos. Telhado, ombro de Sr Irene, caixa d’água, chaminé de lanchonete... cadeiras! Posso empilhar cadeiras!
Empilho cadeiras o mais rápido que posso. Algumas dezenas delas empilhadas. Está alto o suficiente para uma guardiã! Tento escalá-las, mas não consigo. Tento de novo, quase entrando em desespero... percebo que alguns banhistas me observam. A moça de ancas enormes e ombros estreitos faz cara de reprovação enquanto diz alguma coisa no ouvido do marido boboca. Disfarço, por que senão, além de tudo que não tenho, ainda perco meu emprego.
Tento mais uma vez dando o máximo de mim... Não adianta... Dou um bico com o pé nas cadeiras empilhadas e saio enfurecida. Vou para casa, antes que eu contabilize algo além de despejo, estrias, sovaco, mindinho e banco alto roubado... snif!

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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo

quinta-feira, 12 de março de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo V – laterais não são de inox

O quartinho de guardados tem uma maca, um armarinho com primeiros socorros, outro armário com achados e perdidos e uma mesa com um computador velho.
O atual diretor do Piscina Lazer e Cia tem seu próprio escritório, mas algumas vezes por ano ele resolve passar o dia aqui... Prá ver de perto o que andam fazendo! Diz ele.
Estou de pé, próxima à maca, braços cruzados e olhos fixos nos tufos de cabelos grisalhos que se lançam de dentro das orelhas do Sr Telles.
Dedo em riste ele explica os benefícios da pontualidade. Falando baixo, ele aumenta o tom de voz e levanta os calcanhares do chão em todo final de frase. Onde haveria ponto, há dedo indicador nas alturas e calcanhares nos ares.
Porque vidas corriam perigo enquanto você não havia chegado... Porque outros funcionários também se acharão no direito de atrasar quinze minutos... Porque o sol já estava à pino e nada de guardiã chegar... Porque ninguém teria acesso a medicamentos, maca ou outra coisa qualquer porque só você tem a chave do quartinho... blá, blá, blá... Longo sermão.
Tive uma vontade enorme de lhe mostrar a bunda. Pensei logo no meu querido banco alto que ficaria fora de minha vida se eu fosse demitida. Relevei.
Eu havia mesmo atrasado mais de quinze minutos. Contei prá vocês que minha geladeira nova chegou?! Pois é... Fiz essa loucura! Já era bem tarde, o fogo aceso por não-Ademar voltou a me importunar. Comi uma enorme banana d’água com leite condensado. Ainda sentia um vazio. Resolvi comprar uma geladeira!
A internet é mesmo uma amiga fora de série, está sempre acordada e te ajuda no que for preciso. Não apenas comprei uma geladeira. Comprei uma geladeira duplex, frost free e... nunca pensei que fosse algum dia dizer isso... comprei uma geladeira INOX!!! Pensei: uma geladeira todinha de INOX, só pra mim...
A verdade é que não me atrasei por causa da entrega da geladeira. Me atrasei por conta das laterais da geladeira. Fiquei tão excitada ao ver aquele enorme eletrodoméstico envolto por isopor e plástico bolha sendo carregado por dois enormes entregadores suados, que cheguei a ficar com a voz oscilante. Sabe voz oscilante? Aquela que vai e volta, grossa, fina, ágil, lenta, doce, vulcânica... bem, estava eu admirando minha aquisição de inox, esfregando as mãos e o rosto nas portas... e então arrastei os dedos para as laterais e uops!! Que porcaria lisa e pouco escovada é essa! Quem tem geladeira inox e não tem dinheiro para embuti-la sabe do que estou falando. Quem ainda não tem, prepare o coração: APENAS AS PORTAS SÃO DE INOX!! As laterais da geladeira são de uma espécie de esmalte cinza chumbo. Eu queria uma geladeira todinha geladinha e escovadinha... me frustrei geral...
Está explicado meu atraso. Chorei, chorei muito e tive de dar um tempo, para os olhos desincharem um pouco. Mas vê se o Sr Telles foi capaz de me compreender!!
Deixei minha luneta no banco alto e nem subi. As piscinas maiores já estavam cheias de gente se acotovelando para arranjar um espacinho.
Algumas vezes por ano fazemos o dia do Axéfunklambaeróbica. A diversão já havia começado. Professor Ronán no comando e várias bundas flácidas, braços gordos e narizes tampados com as mãos tentando acompanhar.
Percebi que o diretor me fitava de longe. Me posicionei no fundo de uma das piscinas mais vazias e fingi estar só fazendo o meu trabalho. Pernas afastadas, braços para trás e visão no horizonte.
A música estava mesmo animada e bundas flácidas se divertindo de montão. Pensei nas laterais de não-inox, pensei no sermão de Sr Telles... deu uma vontade avassaladora de acompanhar aquelas bundas flácidas. Adoro dançar! Quem iria se afogar numa piscina com axéfunklambaeróbica? Não havia espaço nem para abaixar os braços! Que dirá abaixar o corpo inteiro...
Eu olhava para Sr Telles e sentia a música penetrar por todos os orifícios de meu corpo. Uma vontade imensa de chacoalhar... Já não controlo os pés... os ombros também parecem se entregar à anarquia...
Sr Telles está de Papo com Sr Irene. É minha hora... Me entrego às bundas flácidas e sigo as orientações axéfunklambarescas de Ronán... Ôpa! Diretor fitando... rápido guardiã, observe o horizonte e chute pedrinha!! Dis-far-çando...
Sr Irene é insistente e pagajoso, já toma para si novamente a atenção do diretor... Funk na área, bunda flácida à malha! Úhúú, isso é mesmo melhor que laterais de inox!!... Êpa! Diretor passando... horizonte-pedrinha! Sr Irene foi ao banheiro. Melhor voltar pro banco alto...

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quinta-feira, 5 de março de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo IV – apagando o fogo

são muitas horas no banco alto, de prontidão com minha luneta. Por vezes esqueço de fazer xixi e até de comer. Hoje a piscina está cheia, parece até que ninguém trabalha... Mas eu, como trabalho, e muito, não saio nem para me alimentar. Engraçado! Não me lembrava de ter trazido aqui para cima meu celular. Engraçado! Não me lembrava de saber de cor o número do disk pizza.
Disquei e pedi. Meia portuguesa, meia muzzarela. Seria bom ter alguém para dividir uma pizza maracanã. Engraçado! Não me lembro de ter visto, uma única vez, uma pizza ser entregue tão rápido... mais engraçado ainda, é ver o entregador entrar no parque aquático e vir em minha direção. Jorge da portaria deve estar pinel!
Confiro com minha luneta. É mesmo o entregador de pizza se aproximando. A piscina está cheia, mas ninguém parece notar a presença de um entregador de pizza, uniformizado, segurando um enorme disco de papelão, com uma enorme pizza maracanã dentro. Engraçado mesmo...
Vejo que o rapaz percebeu minha lente diretamente para ele. Disfarço e redireciono minha luneta para outras bandas. Com o olho direito vejo banhistas através da lente. Com o esquerdo, vejo o rapaz quase ao pé de meu banco alto. Bonito o rapaz... não sei bem se bonito, mas charmoso, com certeza.
Apoiei minha luneta no banco e fingi nem ter percebido a presença do entregador. O rapaz bateu em uma das pernas de meu banco alto tentando chamar minha atenção. Ainda fingi que não era comigo – como não seria comigo? Sou a única sentada num banco.
O rapaz bateu com mais vigor e assobiou alguma coisa entre os dentes. Sim! Quer falar comigo? Eu disse, reparando o quão charmoso era mesmo o entregador.
Meia portuguesa, meia muzzarela pá sinhorita aí do alto! Falou o rapaz produzindo em mim um arrepio curvilíneo e ascendente na espinha. Engraçado! Engraçadíssimo! Não sei o que deu em mim, mas mandei que o rapaz subisse, como se eu morasse na cobertura.
Com uma das mãos apoiando o disco de papelão e a outra segurando a barra de ferro de meu banco alto, o entregador subiu, quase em câmera lenta, deixando-se perceber os músculos rijos de seu antebraço através do uniforme fino de nylon.
O último episódio em que me deparei com o não-Ademar, me deixou um fogo em suspenso, pairado no ar, imoto, sem chance de se apagar ou se tornar incêndio.
O rapaz, já no alto, me estendeu a pizza. Engraçado! Muitííííssimo engraçado! Foi que lhe convidei a entrar. Entrar em meu estreito e alto banco de Guardiã de Piscina. Sentamo-nos lado a lado, espremidos. Podia sentir seu musculoso antebraço encostado ao meu.
Eu me via refletida em seus óculos... ups! Eu estava mesmo descabelada! Como eu estava descabelada... Engraçado!! Caramba, verdadeiramente engraçado, foi que coloquei minhas mãos nos cabelos, tentando me ajeitar e percebi que haviam tranças... só podia senti-las, mas não as via no reflexo daquele óculos viril.
Abri a embalagem e mordi um suculento triângulo de muzzarela. Ele me olhava e percebia desejo. Sabia que ele me queria, tanto quanto eu a ele. Lhe ofereci um pedaço. Nunca havia visto uma mordida tão máscula...
Engraçado... comemos um, dois, três, quase toda a pizza maracanã e minha fome não saciava... Pode me emprestar o seu binóculo? Dá o seu binóculo? A boca do rapaz não se movia, nem seus olhos se afastavam de mim. Eu continuava ouvindo... Empresta o binóculo?
Inspirei o ar profundamente e então abri os olhos. A realidade me mostrava um menino gordo, com máscara de mergulho ao pé de meu banco. Moça, empresta seu binóculo?
Não dei muito bola e o menino voltou para a piscina. Binóculo? Tenho cara de Guardiã que usa binóculo? O pai dessa criança deveria ensinar a enorme diferença entre o binóculo e a luneta.
Pronto, agora estava eu ali, acordada, mas desejando voltar para o sonho. O fogo, aceso pelo não-Ademar me corroia por dentro.
A piscina estava cheia. Eu só desejava um rapaz lindo e viril se afogando... abri meu leque de opções. Poderia ser de vinte e um a quarenta. Nariz grande ou pequeno... isso não importava. Eu precisava salvar, pôr em pratica os primeiros socorros... um rapaz batia os pés mais arduamente e sorria pouco. Pronto!! Para mim parece afogamento.
Desci em disparada, mergulhei e trouxe à margem o alvo. Ele nem resistiu, mas parecia assustado. O deitei no chão e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, tasquei-lhe um boca a boca.
Não foi bem um beijo, mas pelo menos, transformei minha labareda num mero riscar de fósforo.



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Assista a seguir, filme de trecho do capítulo


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo III – Ademar pelas bandas

no armário do quartinho de guardados havia esmalte vermelho sangue, bolotas de algodão, algumas toalhas, chinelos, um skate, escova de cabelo e nada de acetona. Continuo então, com um de meus pés borrocado de esmalte vermelho sangue.
Agora, quase no final da tarde, o movimento aumentou um pouco. Por que será que onde tem gente tem lixo? Por que não conseguimos ficar ao menos algumas horas sem gerar lixo? Do banco alto, com luneta em punho, já visualizo um saco de batatas fritas arreganhado no chão, um todinho espremido largado num tronco baixo de uma árvore e copos plásticos espalhados pelo gramado, fingindo-se de flores.No estatuto do Piscina Lazer e Cia está claro, claríssimo! Limpeza, bem como varrição e catação de lixo não são, de forma alguma, função da(o) guardiã(o) de piscina... mas, dane-se o estatuto!
Desço e, lentamente, sem pressa, me abaixo e pego o saco de batatas, busco o todinho no galho... e jogo no lixo. Ainda são poucas as pessoas que estão por aqui. Antes de me abaixar, de me esticar, de catar e juntar, cada um dos objetos largados à esmo, lanço um olhar para cada sócio ou banhista que cruzo pelo percurso. Meu olhar de reprovação é assim: suspendo ligeiramente as maçãs do rosto, espremo os cantos laterais dos olhos e projeto minhas pupilas diretamente para dentro dos olhos do acusado...
Ademaaaar!!
Ademar?! Enquanto lançava meu olhar para a garotinha de boinhas de braço, vi Ademar, lá no fundo, talvez chegando, talvez saindo... Será mesmo Ademar? O “meu” Ademar dos tempos de escola? Há quanto tempo não vejo Ademar? Desde que eu dizia para ele, com toda a certeza do mundo, que eu seria uma pessoa importante, que seria médica, médica-cirurgiã, que seria rica, bela e poderosa...
Não posso ver Ademar. Não posso, de modo algum ser vista por Ademar.
Corro, o mais rápido que posso, em direção as árvores do gramado em volta da piscina. Corro utilizando todas as técnicas de atletismo aprendidas na faculdade de Educação Física. Vendo que não chegaria aos arbustos à tempo de me esconder de Ademar, num salto, giro uma cambalhota fugidia e já me vejo de quatro, atrás de um arbusto.
Lá está ele, Ademar! Nunca havia freqüentado O Piscina Lazer e Cia... estaria ele com a família ou sozinho?
Ademar foi o primeiro e talvez meu único grande amor. Não quero que me veja aqui, uma simples guardiã de piscina... o que vai pensar? Que sou uma fracassada, uma iludida, pobre e sozinha.
Me movimento rapidamente para trás de um largo tronco de árvore. Não posso ficar aqui a tarde inteira. Vou enfrentar Ademar! Mas como vou fazer para que saiba que não sou tão fracassada assim? Ele precisa saber ao menos, que fiz faculdade de Educação Física. Preciso pensar... pensar rápido... não posso simplesmente chegar e dizer: oi, tudo bem? Sabia que eu fiz faculdade de Educação Física?!
Vou dizer que estou atrasada para o jantar de confraternização da turma de formandos do curso de Educação Física da Universidade Santa Luzia de Lavrinhas... É isso!
Não, não sei se quero ver Ademar. Eu era dona dos pares de coxas e peitos mais almejados da escola... talvez agora ele nem me reconheça.
Aqui tem um formigueiro, corro, quase desesperada pelo gramado e me jogo, deitada, atrás de uma espreguiçadeira.
Ademar também não está lá essas “coca-colas” não. Que barriga é aquela? Com certeza está casado. Eu devia estar casada... uma aliança. Preciso falar com Ademar que não tenho muito tempo para bater papo agora, por que estou atrasada para o jantar de confraternização e meu marido está me esperando... não, meu marido estaria vindo me buscar. Já sei, basta dizer esse troço da confraternização com uma aliança no dedo. Como vou arrumar uma aliança agora?
A grama pinica meu corpo todo. Daqui vejo Ademar. Vejo também, no chão, próximo à uma das mesas, um metal brilhando... afinal, o lixo daquela gente sem educação me serviria enfim...
Olhei por uma fresta embaixo da espreguiçadeira e num pulo, me levantei e a passos quase normais, me aproximei do metal, abaixei e encaixei no dedo um lacre de latinha de refrigerante. Estava aí minha aliança.
Ah Ademar! Quantas vezes sonhei com você, esses anos todos... Andei em sua direção. O coração cantava descompassado. Ademar estava de costas para mim. Hesitei um pouco e então pus a mão em seu ombro. Virou-se para mim um homem de nariz adunco, bochechas pendentes e olhos miúdos.
O homem, que não era Ademar, esperava de mim uma reação, afinal eu era a guardiã de piscina. Senhor, este lacre de latinha de refrigerante é seu? Não jogue mais lixo no chão, ou serei obrigada a notificá-lo junto á diretoria...
Saí sem olhar para trás. Escalei meu banco alto e então me senti segura.
Compunha-se ali o veredicto final: eu envelhecia. Primeiro por que agora era certo que precisaria de óculos, segundo, que havia repetido a palavra “Ademar” dezoito vezes em menos de duas laudas e meia...
Leu?
Assista a seguir, filme de trecho do capítulo:

Filme - Capítulo III

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

banco alto e uma luneta - capítulo II – meus dedos dos pés e a boca dos outros

quarta-feira é um dia sem muito valor. Não se inicia nada e nem está perto do fim. Acordei hoje querendo não acordar. Me olhei no espelho e achei minhas maçãs mais inchadas, os poros de minha pele mais abertos e manchas de sol brigando entre si: deixa eu, deixa eu, deixa eu aparecer mais!... Achei mesmo que hoje era dia de maiô preto, no máximo uma lista branca na lateral.
A escolinha de natação acabou às oito e já são dez e quinze. Daqui de cima, foco a lata de lixo com minha luneta. Nada de mais! Foco a grama e procuro bichinhos. Formigas enfileiradas, besouros, percevejos, pulgas, aranhas... nada! Nada mesmo. Só havia eu. Eu, no máximo um ou dois banhistas, o banco alto e minha luneta.
Olhei minha virilha e escorri os olhos para minhas coxas. Onde estavam eles? Quero dizer... sei que havia ali... sempre estiveram comigo e eram até motivo de orgulho. Meus músculos haviam ido embora.
Uma guardiã de piscina sem músculos?
Passei as mãos no cabelo. Como estavam secos e maltratados pelo cloro! Pude perceber também uma barriga, mais saliente e muito mais viva. Mas que droga!! Pensei que, talvez, se eu ficasse o máximo de horas da minha vida aqui, sentada neste banco alto, o tempo me poupasse ao menos um pouco.
Olhei ao redor e realmente não havia ninguém. Lembrei que já fazia praticamente um ano após meu último namoro frustrado. Eu estava só. Eu, banco e luneta.
Com a lente da luneta encostada em um de meus olhos, foquei meus pés. Pés paralelos, soltos no ar, se esquecendo de movimentos básicos como encolher e afastar os dedos. Eu, verdadeiramente, havia esquecido de meus pés. Pés cascudos que já nem sentiam o calor do chão. Pés que voavam mais, que caminhavam.
Muitas coisas minhas e dos outros ficavam esquecidas no armário do quartinho de guardados da Piscina Lazer e CIA. Um chumaço de algodão e um esmalte vermelho sangue prontos para me fazerem sentir algum prazer comigo mesma.
De volta ao banco, me certifiquei novamente do vazio ao meu redor. Hesitei ao lembrar de como eu repudiava mulheres lambuzadas de blondor estateladas ao sol. Pintar as unhas seria o mesmo?
Estiquei os braços e alcancei meus pés flutuantes. Separei os dedos com bolotas gordas de algodão e envernizei uma a uma. Agora sim, eu começava a sentir até uma vontadezinha de beijar boca de homem.
Socorro!! Upf! Socor... Treinada que sou, olhei rapidamente para frente. Primeiro ouvido, depois olhos e então, a ação. Desci de meu banco alto em menos de quatro segundos.
Ainda com bolas de algodão prensadas entre os dedos e esmalte fresco nas unhas, corri rapidamente. No meio do trajeto, peguei minha prancha de salvamento, hoje meio esquecida num canto qualquer. Avistei o alvo na piscina funda, exatamente abaixo do trampolim. Cabeça surgia, cabeça sumia.
Num salto, mergulhei e passei o braço em torno de seu pescoço. Na borda, tive dificuldades de tirar o homem da água, que parecia querer sugá-lo pelo ralo.
Deitado, na beira da piscina, o alvo não respirava. Olhei meus dedos dos pés. Um borrão vermelho sangue pelas unhas, dedos, pés e até um pouco na canela. Fiapos de algodão encharcados entre, sob e sobre os dedos, por baixo das unhas e grudados nos meus calcanhares.
Apertei o nariz do alvo com os dedos indicador e polegar. Iniciei então a famosa respiração boca a boca. Um enorme jato d’água clorada jorrou de dentro da boca do alvo e acertou a minha, que ainda estava aberta, se preparando para o próximo sopro.
O alvo recobrou a consciência e se sentou. Chorando, me agradecendo, me abraçando, me beijando, estava ali, sentado, com as largas dobras da barriga à mostra, Sr Irene, um associado antigo, que resolvera, justo no dia em que pinto minhas unhas, pular de um trampolim - indicado para pessoas com menos de setenta e cinco anos.
Já estou no alto. O maiô é preto, mas os dedos, os pés e parte das canelas são vermelho, vermelho sangue borrocado.
Beijei a boca de um homem? Beijei. Beijei a boca de um homem com o dobro da minha idade e o mesmo nome da minha tia. Irene.




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Filme - Capítulo II